No decorrer das próximas semanas perpetua-se a memória. Apresentamos momentos, eventos e histórias que marcaram o percurso de vida da BD2J. Grande parte destes podem encontrar no livro da associação Aspectos da Vida da Banda Democrática 2 de Janeiro por Rui Aleixo.

Quando, em 1914, se fundou a Banda Democrática, já existia em Aldegalega, na Praça da República, um coreto, propriedade da Sociedade Filarmónica 1º de Dezembro, que não podia ser utilizado pela nova filarmónica, devido ao antagonismo que as separava. Como a Sociedade Filarmónica 1º de Dezembro tinha tornado a Praça da República o seu auditório ao livre, a Banda Democrática começou por realizar os seus concertos na Praça 1º de Maio, antigo Largo da Misericórdia. Foi ali que, em 1915, a Banda Democrática construiu «um lindo coreto de madeira feito por subscrição pública, de iniciativa de um grupo de amigos da Banda Democrática, sob a direcção do distinto artista José Rodrigues Pancão», e, numa quente noite de Verão, fez ouvir a sua banda e organizou uma «Kermesse e fogo solto, o que resultou uma agradável festa.» Este coreto serviu durante quatro anos, altura em que foi substituído por outro, também de madeira, que foi inaugurado no dia 26 de julho 1919. Na mesma altura, a banda apresentou o seu fardamento em mescla, com dolman azul escuro e calça em cinzento e boné de tipo francês também em mescla, que foi oferecido por Francisco Sampaio Pombinha, rico industrial. Recorde-se que o primitivo fardamento, que fora comprado por subscrição pública, era confeccionado em cotim militar muito simples, com boné tipo inglês também em cotim e com pala de polimento, e foi executado «na importante Alfaiataria Militar do senhor Teófilo dos Santos Neves, da Travessa de S. Domingos, em Lisboa», que cobrou 1.800$00. Mas, volvamos ao dia 26 de julho de 1919, porque… «é ôje que nesta vila tem lugar a festa da Banda Democrática sendo também a estreia dos fardamentos e a inauguração do coreto. A festa começará com alvorada às 6 horas com foguetes e morteiros. Às 18 horas sessão soléne devendo às 19 sair a Banda a cumprimentar o povo[…]recolhendo em seguida á sede do Centro Democrático. Às 22 horas e meia, subirá a distinta banda ao coreto da Praça 1º de Maio, havendo arraial e Kermesse que se prolongarão até tarde. Segunda-feira haverá almoço de confraternização às 11 horas. Às 19 horas haverá cavalhadas na Praça 1º de Maio e ás 22 e meia concerto no coreto pela Banda Democrática, iluminações, fogo solto, Kermesse, etc.»
Ficámos a saber, pelos jornais da época, que «foram deslumbrantes os festejos realizados em consequência da estreia dos fardamentos da simpática e distinta Banda Democrática de Aldegalega e do novo coreto da Praça 1º de Maio» e que «com extraordinária concorrência realisou-se á noite, na Praça 1º de Maio, o arraial que durou até depois das duas horas do dia imediato.» Na alocução proferida durante a sessão solene, Manuel Paulino Gomes recordou que a Banda Democrática foi «filiada e criada dentro do glorioso Partido Republicano Portuguez» e que «há na vida da Banda uma verdadeira trindade a quem tudo ela deve, constituída pelos senhores Francisco da Silva Sampaio Pombinha, Joaquim Maria Gregório e o regente Manuel Sequeira. O primeiro, colocando-se incondicionalmente ao lado da Banda Democrática, forneceu-lhe o mais forte sôpro de vida de que ela necessitava; o segundo é o combatente audaz pela consecução dos fardamentos, a verdadeira alma de toda a organização da Banda; o terceiro com a sua alma de verdadeiro artista, o grande amôr pelos dirigidos, o seu absoluto desinteresse e as suas incomparáveis qualidades de trabalho e de regência, conseguiu do nada fazer todo o possível. São três pessoas absolutamente distintas, consubstanciadas n’um Deus único
– a Banda Democrática.» Vida curta teve este coreto, porque, em 28 de setembro de 1921, a direcção da Banda Democrática pediu à Câmara Municipal «a devida autorização para a demolição do seu coreto existente na Praça 1º de Maio, para em sua substituição ser construído um de pedra, cal e ferro a fim de embelezar a respectiva Praça(…)», que lhe foi deferida na reunião da Comissão Executiva da Câmara Municipal, de 27 de setembro de 1921.
In Aspectos da Vida da Banda Democrática 2 de Janeiro por Rui Aleixo
